“Azul é a cor mais quente”

Resenha crítica do livro/filme relacionada a nossa vida cotidiana

Olá pessoal!

Venho hoje dividir com vocês uma das histórias mais lindas e sensíveis que já li. Mas infelizmente não posso dizer o mesmo do filme. Quer saber porque? Então vamos lá…

Primeiro quero que saibam que a parte inicial dessa resenha vai ser SEM Spoiler, visando principalmente quem ainda não leu o livro nem viu o filme. Mas para demonstrar minhas divergências com o filme e principalmente para trazer as problemáticas para a nossa vida cotidiana, vou precisar dar alguns spoilers. Não se preocupe!! Os spoilers não serão muito pesados, mas vou delimitar bem esse momento para caso você tenha muito problema com isso. Trarei também alguns dados da vida real, afinal de contas, a literatura e o cinema podem servir também como belos meios para exercitarmos nossa consciência crítica não é mesmo? Por isso que acho interessante, você ler a primeira parte, ver o filme ou ler o livro e depois voltar para cá e ver um pouco das reflexões que o livro/filme me trouxeram. Só mais uma última coisinha… Lá no finalzinho estão alguns links interessantes, como por exemplo o livro online, e alguns artigos e livros pertinentes ao tema.

Sem mais delongas… Comecemos…


Sem spoiler

A história conta a vida de Clémentine (que no filme se chama Adéle). Ela está no ensino médio, passando por aquele período que todos nós passamos, iremos passar ou estamos passando: a adolescência. Quando em um belo dia ela se depara com uma linda garota de cabelos azuis que passa a ser protagonista de seus sonhos eróticos. Paralelamente a isso, Clémentine/Adéle começa a perceber que não se interessa tanto por homens, sendo as mulheres muito mais atraentes para ela, principalmente Emma (a linda menina dos cabelos azuis). Diante disso, se inicia um grande enfrentamento com amigos, família e com ela própria, no sentido da auto-aceitação e o filme/livro se desenrolam a partir daí.

O filme, famoso pelas cenas longas de sexo lésbico, me parece que conseguiu o que queria, totalmente adaptado para uma versão cinematográfica, quase não passa a essência do que a linda história do livro nos transmite. Caso você queira ter um verdadeiro encontro com a vida de Clémentine/Adéle e entender o que ela sente, como ela enfrentou seus desejos ardentes junto com um cotidiano preconceituoso e opressor, sugiro que leia o livro. É extremamente rápido de ler e por ser uma História em Quadrinhos (HQ), demonstra também em imagens todo o sentimento da protagonista. Mas se quiser ter uma noção mais encurtada (embora sejam 3h de filme rs), com menos detalhes e muitas “omissões” da história original, veja o filme.

Concordo com a visão de que para uma boa adaptação não é preciso uma cópia fiel do livro. São formas de expressões diferentes, logo, cada uma pode ter seu jeito próprio de passar a mensagem desejada. O que quero mostrar aqui é que os pontos cruciais do livro — que nos fazem sentir todo o apelo emocional de quem vive na contramão de padrões sociais — é abordada em parte, não sendo, porém, o foco principal do filme, prejudicando a mensagem central que julgo só ter sido atingida de maneira parcial.


Com spoiler

Agora vem os SPOILERS, quem já viu o filme ou leu o livro e querem saber uma opinião mais detalhada sobre eles, problematizadas junto a dados da realidade, vamos conversar …

Percebi ao longo de todo o filme que a expressão da Adele era de tristeza quando estava se relacionando com homens, e de felicidade/satisfação quando estava passando por momentos mais íntimos com mulheres. Porém, no início, ela se força a gostar de homens e fica triste por sentir atração por mulheres, indo contra o que todas as suas amigas e familiares concordavam e incentivavam. Será uma simples coincidência que a pressão da família e dos amigos sejam pelos mesmos motivos? Ou será que há uma ideologia que nos pressiona e nos molda em padrões sociais?

No filme, algo que ficou muito claro foi a falta de contato com a família, a falta de diálogo entre Adele e seus pais. Essa é uma questão que está na ordem do dia e não só em assuntos relacionados ao preconceito a LGBTs, mas também no que tange o enquadramento de mulheres e homens em seus “papéis sociais”, e até mesmo em ser um dos locais mais violentos para crianças e adolescentes. A família, portanto, tratando-se de lesbofobia, é a base de acolhimento e também o núcleo gerador de homofobia. Percebemos isso no livro, quando os pais de Clémentine/Adéle a expulsa de casa por ter descoberto seu relacionamento com Emma. Ao longo do livro também é claro o preconceito que o pai de Clémentine/adele têm com Emma e a não aceitação dele em relação à sexualidade da filha.

Acho que com dados fica mais clara a elucidação de como esse fato retratado no livro/filme, tem ligações com a “vida real”. Em uma iniciativa da Fundação Perseu Abramo (FPA) em parceria com a Fundação Rosa Luxemburg Stiftung (RLS) foi realizada uma pesquisa que detectou, dentre outras coisas, os principais agentes descriminadores de lésbicas, chegando ao seguinte resultado: 25% seus pais; 32% outros familiares; 25% amigos; 21% amigos de escola.

Podemos perceber com esses dados que mais da metade dos agentes descriminadores são familiares e a outra parte são amigos, ou seja, as pessoas que deveriam apoiar, são as mesmas que descriminam. Talvez seja esse um dos motivos da dificuldade de Clémentine/Adéle em expor seu relacionamento com Emma, inclusive para seus colegas de trabalho.

No filme há um hiato gigante e do nada Emma e Adéle estão morando juntas. No convívio das duas foi possível perceber a demarcação de padrões sociais encarados socialmente como masculinos em Emma e femininos em Clémentine/Adéle. Aqui, falando especificamente do filme, podemos perceber que Emma é mais bruta, violenta, não contribui com os afazeres domésticos e é a que detém a “ascensão” dentro da casa. Já Adéle, mesmo trabalhando como professora, ainda assim fica com a incumbência dos trabalhos domésticos, é a que mais expressa seus sentimentos e também a que está sempre disposta a entender a outra em uma briga. Detectam alguma coincidência com relacionamentos heterossexuais?

Na sociedade em que vivemos há uma cultura patriarcal que coloca a mulher enquanto inferior ao homem, e eu diria mais, coloca o feminino enquanto inferior ao masculino. Isso quer dizer que os padrões masculinos tem mais valor nessa sociedade independente se forem exercidos por mulheres ou homens, ou até mesmo em profissões. Vamos falar com exemplos que acho que fica mais fácil…

Profissões como engenharias, direito, medicina, trazem aspectos que podemos considerar como masculinos e portanto são mais bem remuneradas e tem mais ascensão social, diferente de psicologia, serviço social e enfermagem por exemplo, que trazem aspectos como ser boa, apaziguadora, boa ouvinte, dentre outros. Mesmo dentro das profissões ditas masculinas, as mulheres que lá estão, trazem as aspectos masculinos junto com elas. Porém, não podemos deixar de ressaltar que a ascensão do homem sobre a mulher também existe, nos fazendo entender por exemplo, o motivo pelo qual dentro de uma profissão predominantemente feminina, muitas vezes é o homem que assume os papéis de liderança. Lembrando sempre que isso ocorre de maneira velada e muitas vezes imperceptível aos olhos do senso comum.

Nesse sentido fica clara a desigualdade entre os gêneros e sexos, fazendo com que se estabeleça uma relação de poder entre eles. A esse modelo podemos chamar de patriarcado. Estamos todos inseridos nessa sociedade e tendemos a reproduzir os aspectos nela naturalizados, como é o caso do machismo. Desta forma, conseguimos “entender” ou ao menos identificar por qual motivo há machismo até mesmo dentro de relações homossexuais, onde em tese não deveria ocorrer. O machismo, estimulado e catalisado pelo patriarcado, está em todos os âmbitos da vida social, inclusive e principalmente nas nossas relações com o outro. Talvez possamos entrar mais profundamente nesse debate em outro post mas é importante pelo menos refletirmos sobre o porque disso tudo e o que podemos fazer para iniciar o caminho para o fim deste modelo opressor que vivemos.

Clémentine/Adéle e Emma nos ajudaram a refletir sobre nossa sociedade e o dia a dia cheio de preconceitos que homossexuais enfrentam, mesmo quando ainda nem tem noção do que eles próprios sentem. Acho que esse tipo de leitura/filme nos faz criarmos mais sensibilidade para um cotidiano que talvez nem nos afeta tanto mas que precisamos estar cientes, e para quem passa pelas coisas retratadas no filme/livro, conseguem se sentir representados de alguma forma.

Obviamente textos como este são necessários para nossa atual conjuntura política. Espero que tenham gostado… Até a próxima reflexão!


Links úteis

Aqui você pode encontrar o livro que contém os dados sobre lesbofobia

Sobre patriarcado indico o livro “Gênero, patriarcado, violência” de Heleieth Saffioti.

Livro para ler online “Azul é a cor mais quente”. Clique aqui

Texto sobre sexo/gênero. Clique aqui

Barbara Castro

Assistente social, feminista, apaixonada por literatura e na luta contra essa sociedade opressora e alienante.

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