“O surdo caminho das trompas”

Era um óvulo fecundo de dimensões quase invisíveis,  embora seu peso fosse grande desde o instante divisor do seu real.

Acho que na vida, ser mãe seja um dos poucos caminhos sem volta. Mas há essa esquina, e essa bifurcação e um sinaleiro logo a frente. Uma náusea me toma porque sei da necessidade de seguir, mas as pernas ganham um peso que me fariam estatelar no chão.

É preciso atravessar o sinal em exatos 30 segundos. Sim, viver é um procedimento muito arriscado.

A farmacêutica me olhou complacente, como quem anuncia a impossibilidade em um sorriso: Deus sabe o que faz.

Dois passos adiante o caos do mundo na sonoridade dos carros que se gritam: não há tempo para  considerar. Meia hora para chegar até em casa e os pés que aguentem porque não há confrontação possível no vagão da Luz. Fé.

Havia uma sensação bem ali no plexo e um outro nó, situado ao nível da garganta.

Isso é coisa de que se fale?

Sei que dou conta de tudo sozinha mas e se,

e se amanhã ou medo?

Eu queria querer, mas não quero, não quero não.

Sinto que as mulheres tomam parte com os bichos, e que por vezes adquirem a habilidade de um animal rasteiro: é preciso saber por onde.

O corpo ereto, a água quente caindo. Me abraço porque não há mãe possível nesse instante. Não há colo largo onde possam caber certas verdades. Estoy sola, mama.

Evoco a memória: quem mesmo contou aquela história? A amiga da amiga da amiga?  Não deve ser tão difícil, basta consultar os oráculos virtuais. Lembro dos casos em que não funcionou, daquela história que deu ruim. Afasto a névoa dos pensamentos;

O tempo força ação a bíceps.

Como é mesmo que se mantém segredo numa rede de confissões banhadas em culpa, empurradas para o buraco das coisas não ditas?

Aborto. Repito comigo: a-bor-to. E a boca saboreia a ferrugem da palavra, comungando de uma amargura conhecida no reino das mulheres. Há verdades que devem ser socadas para dentro, como se segredo fosse farinha de engolir a seco.

É preciso partilhar:  Maria, qual é mesmo o nome daquela amiga que soube de um caso lá na Vila? É Joana que se chama?  - É, é Joana o nome dela.

Joana, não te conheço, mas sei porque uma amiga falou e nessas horas é complicado mesmo. “Tô” meio sem saber como fazer.  Já passou um tempo, tô com medo.

Não falo, mas clamo como quem diz: Joana, me estende a mão?

Quase me esvaio pelos cantos como quem pede desculpa por existir. É que o medo nos apequena demais para ocupar espaço.

Demandei socorro sem saber pedir ajuda.

Ela era um pouco mais velha do que eu, embora aparentasse ter passado pelos rasgos do tempo. É que certas escolhas nos fortalecem e no fundo, eu sei: as mulheres tomam parte com os bichos.

Sangrou muito, manchou o tecido a minha volta. E mesmo a dor não se confortando com nada, havia uma mão desconhecida, pousando suave sobre a minha testa.

Sinto que em toda a gente, lá dentro dos recintos escuros, deve haver uma morada de fé. Não é uma questão de prece, mas de silêncio.

Não lembro como cheguei até a sua cama, mas foi lá que eu dormi e ali mesmo tomei meu café. Me pus de pé na segunda feira, entre o espasmo e o alívio. Joana não usava cortinas e a intensidade da luz pôs limite a um sono que poderia se estender ao infinito.

A-bor-to. Repito pra mim mesma, digerindo o acontecido por dentro. Qual o gosto que a palavra tem? É amargo, sim, a-margo-, três sílabas, sonoridade aproximada. Mas para todo amargo, há ainda a doçura do afeto. Joana e eu falamos quase nada, o suficiente para que ali se criasse um pacto de compreensão.

Meio manca, meio amarela, faço o retorno pra casa. Para alguns caminhos não há mesmo volta possível, mas a isso deve se chamar integridade.

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*Ana Eduarda Diehl, 25 anos, aprendiz de antropóloga, de fotografia e de palavra.

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